Puxador' ajuda lojista a recuperar clientela perdida com fechamento.
Aluguel de banca pode chegar a até R$ 3 mil por mês, dizem comerciantes.

Antonia Abreu tinha cerca de 40 clientes fixos
(Foto: Marcelo Mora/G1)
(Foto: Marcelo Mora/G1)
Os comerciantes da recém-fechada Feirinha da Madrugada, do Brás, na
região central de São Paulo, tiveram de abrir mão de uma carteira fixa
de clientes e agora estão tendo de disputar, em pontos de venda
improvisados, cada consumidor que passa pelas ruas da região. Para isso,
contam com a ajuda de um "puxador", algum funcionário que fica nas
esquinas exibindo os produtos oferecidos e tentando 'puxar' um cliente
em potencial para o local onde a banca está instalada.
A área onde funcionava a feira foi fechada na semana passada para
reformas, por um prazo previsto de 60 dias. Por isso, muitos destes
comerciantes tiveram de alugar estandes ou bancas em shoppings,
minishoppings ou um espaço em qualquer outra portinha, como garagens,
espalhadas pela região onde pudessem expor os seus produtos e, assim,
continuar a trabalhar. Em vários deles, há faixas indicando o aluguel de
bancas. Em alguns casos, o aluguel de um ponto pode chegar a até R$
3.000 por mês.
Segundo os comerciantes, os policiais militares não permitem que eles
montem barraquinhas ou que vendam seus produtos nas calçadas ou nas
ruas. Apesar disso, alguns deles ainda tentam oferecer alguns poucos
produtos que carregam em sacos plásticos. Se forem flagrados, durante
uma abordagem a um cliente, por exemplo, correm o risco de terem a
mercadoria apreendida.
Em uma travessa da Rua Oriente, por exemplo, era possível avistar na
madrugada desta quinta-feira (6) uma faixa com os dizeres “Feirinha da
Madrugada – A Vila da Economia”. Na entrada da viela, “puxadores”
tentavam arrastar compradores para os lojinhas, muitas delas de
comerciantes que tiveram de deixar a Feirinha da Madrugada, instaladas
na pequena rua sem saída.

Travessa da Rua Oriente virou um dos pontos de
comércio (Foto: Marcelo Mora/G1)
comércio (Foto: Marcelo Mora/G1)
“Temos de abordar quem passa pela rua. Mas não podemos mostrar a
mercadoria na rua, senão a polícia toma da gente. Temos que pegar o
cliente no laço”, ilustrou o ‘puxador’ Diel de Oliveira, de 28 anos, que
indagava a quem passava se estava interessado em comprar camisetas.
A transferência do local de vendas mudou as características do negócio.
“Na feirinha, o pessoal passava e parava para olhar os seus produtos. E
já tinha até aqueles que vinham direto comprar de você. Agora, nos
tornamos vendedores ambulantes. Tem de ser cara larga e abordar o
cliente”, explicou.
Como consequência, as vendas caíram vertiginosamente, além de terem de
arcar com o aluguel de um estande ou de uma banca nas proximidades da
feirinha. “Por uma banca de 1,20m por 0,80m, estou pagando R$ 150 por
semana. As vendas já estavam fracas com as notícias de fechamento da
feirinha, agora a queda chega a 30% em média”, disse Oliveira.
Para não ficar sem trabalhar, a comerciante Antônia Abreu, de 49 anos,
pagou pouco mais de R$ 1.000 por um ponto em shopping na Rua João
Teodoro, além de ter de desembolsar uma mensalidade de R$ 700. Há 10
anos na feirinha, ela pagava cerca de R$ 250 por mês a uma cooperativa
para manter uma barraca no local.
“O pior de tudo é que eu tinha uma carteira com cerca de 40 clientes,
que vinham comprar direto comigo. Aqui, tenho de pegar o cliente na
rua”, reclamou. Segundo ela, apenas um cliente do Rio Grande do Sul
conseguiu localizá-la em seu novo endereço. “Tem muita gente muito pior
situação do que a minha, que não está nem conseguindo trabalhar”,
ressaltou.

Alves Mendonça, 'puxador' de clientes
(Foto: Marcelo Mora/G1)
(Foto: Marcelo Mora/G1)
O ‘puxador’ Alves Mendonça, de 27 anos, tinha mais motivos para
comemorar. “Aos poucos, os clientes estão voltando. Eles me vêem na rua e
estão me reconhecendo. Daí eu os levo até o novo ponto”, contou,
enquanto exibia uma blusa de lã vermelha a quem passava pela rua.
Segundo ele, muitos comerciantes que não tinham conseguido se
estabelecer em outros pontos da região aproveitavam momentos de
distração dos policiais militares para exibirem os seus produtos em
lonas estendidas na rua. O horário das 6h é o preferido, de acordo com o
puxador. “Só precisa ficar atento para recolher tudo e não ter a
mercadoria recolhida”, ensinou.
Histórico
A Prefeitura de São Paulo
determinou o fechamento administrativo da Feira da Madrugada por meio
de uma portaria (14/2013) publicada no último dia 30 de abril no Diário
Oficial da Cidade. No dia 9, os comerciantes do local obtiveram uma
liminar na 24ª Vara Federal para manterem o espaço aberto, sob a
condição de que realizassem reformas para garantir a segurança da feira.
O Corpo de Bombeiros vistoriou o local e considerou que as reformas
foram "insuficientes para a garantia de segurança da integridade física
de comerciantes e frequentadores".
Com base na avaliação dos Bombeiros, a administração municipal recorreu
da decisão do juiz da 24ª Vara Federal para prosseguir com o plano de
reforma. A liminar foi cassada pelo Tribunal Regional Federal da 3ª
Região em 27 de maio.
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